Mulheres indígenas fazem ato de adesão à campanha da ONU pelo fim da violência de gênero no Acampamento Terra Livre

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Cerca de 500 mulheres indígenas vestiram a camiseta laranja “Voz das Mulheres Indígenas pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, expressando a adesão à campanha do Secretário-Geral da ONU “UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres” no 15º Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília. O ato aconteceu em 25 de abril em referência ao #DiaLaranja, organizado mensalmente pela ONU, para mobilizar ações de prevenção e eliminação da violência de gênero em todo o mundo. No ATL, o #DiaLaranja teve o apoio do Grupo Temático de Gênero, Raça e Etnia da ONU Brasil.

Valéria Paye, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e indígena do povo Kaxuyana, do Pará, fez um chamamento ao Acampamento Terra Livre. “Como uma dessas mulheres que estão aqui, eu digo que a luta pelo fim de todos os tipos de violência é de todos nós, povos indígenas. Mas como mulheres indígenas, a gente tem levado essa discussão e denunciado porque nós, mulheres indígenas, nesse processo da violação dos direitos dos povos indígenas somos as primeiras a serem afetadas. Quando os grandes projetos chegam em nossos territórios, quem é que recebe o primeiro impacto? Somos nós, as mulheres, e as crianças. Essa questão de debater e combater é uma responsabilidade de todos nós”, discursou.

Em referência à fala de Sônia Guajajara, ocorrida na Plenária das Mulheres Indígenas, Tsitsina Xavante, do projeto “Voz das Mulheres Indígenas”, que tem o apoio da ONU Mulheres Brasil, relembrou a violência machista histórica contra elas. “Muita gente no Brasil, diz que teve avó ou bisavó ‘pega no laço’. Na verdade, a sua avó e a sua bisavó sofreram violência física, violência psicológica. Sua avó, sua bisavó, sua tataravó foram estupradas. Então, a geração atual do Brasil é uma geração que se desenvolveu sobre alicerces de violência às mulheres indígenas desde a colonização”, recuperou.
Tsitsina reforçou a necessidade de reação de todas e todos indígenas à violência de gênero. “E nós, mulheres, homens, jovens e anciãos, devemos dizer um basta à violência contra as mulheres indígenas. Um basta ao estupro das meninas e das mulheres indígenas. Violar uma mulher indígena é violar um povo, porque não somos parte de um povo. Nós somos um povo. Agredir as mulheres e meninas indígenas, é agredir um povo, uma cultura. É violar um povo. Basta à violência”, convocou.

Em seguida, Tsitsina Xavante organizou a distribuição das camisetas entre as regiões. “E nessa ação da cor laranja, em combate à violência contra as mulheres e aqui, às mulheres indígenas, nós trouxemos, com o apoio do GT de Gênero, Raça e Etnia da ONU Brasil, algumas camisetas para mostrar que sim, nós, mulheres e homens, estamos na luta pelo fim da violência contra as mulheres”, completou.

Agenda 2030 e fim da violência contra as mulheres – Carolina Ferracini, gerente de projetos da ONU Mulheres, comentou que a campanha UNA-SE, em seus dez anos de existência, congregou pessoas e instituições do mundo inteiro para trabalharem juntas pelo fim definitivo da violência contra as mulheres e as meninas. Lembrou que a cor da campanha – o laranja – é uma cor otimista, vibrante e que representa a coragem para enfrentar todas as violências de gênero. Também ressaltou o compromisso da ONU Mulheres de continuar ouvindo as demandas das mulheres indígenas para oferecer respostas às violências que elas vivem.

Ismália Afonso, oficial de Programas de Gênero e Raça do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), falou sobre a relação entre a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, adotada pelos Estados-Membros da ONU, com a eliminação da violência contra as mulheres e meninas, uma das metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 referente à igualdade de gênero.

“A pauta das mulheres é uma pauta complexa e não pode deixar nada de fora. Ela entra no esforço da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável com o objetivo de não deixar ninguém para trás. Viver uma vida sem violência é direito de todas as mulheres. É direito das mulheres indígenas. E a entrada de vocês nessa campanha certamente fortalece a luta de todas as mulheres: as mulheres brancas, as mulheres negras. E que cada grupo social, que enfrenta seus desafios próprios, precisa ser ouvido e ser acolhido em todas as suas demandas”, disse.
Elisa Pankararu, da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), salientou a relevância da mobilização. “Essa ação é simbólica, mas é de muita importância e de muito valor. Nós precisamos debater a questão da violência contra as mulheres desde o seu início. Então, precisamos falar sobre o assunto e levar para os espaços públicos, porque a violência contra as mulheres não é apenas doméstica”, enfatizou.

Pankararu condenou a violência institucional que impede as mulheres indígenas de acessar serviços públicos e o direito de ir e vir. “A violência está em todos os espaços, nos comércios, nos hospitais, nas ruas, nas escolas. Ela é uma conduta malígna e maléfica, herança do colonizador, que vai para os espaços públicos e para as políticas públicas. O racismo, o machismo quebram os nossos direitos como cidadãs e acesso às políticas públicas e temos de estar atentas a isso. Devemos dizer que somos guardiãs e detentoras dos saberes tradicionais tão quanto os nossos homens, nossos mais velhos e nossas mais velhas”, acrescentou Elisa.

Destacado como porta-voz dos homens e da juventude no ato, o indígena peruano Giuseppe Villalaz, do povo Guna de Gunayala, mencionou que a violência de gênero é uma questão vivida por mulheres indígenas em outros países. “Em todo o mundo, as mulheres indígenas sofrem vários maus-tratos e a violação dos seus direitos. Hoje, é um dia histórico e marcante para as mulheres indígenas, mas especialmente para as mulheres indígenas do Brasil. Elas farão uma marcha pacífica, reivindicando seus direitos pelas ruas de Brasília. E, no marco da aliança que se formou ontem à noite, apoiamos vocês e juntamos as nossas vozes no enfrentamento à violência contra as mulheres”, declarou.

Fonte: ONU Mulheres

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