Documentário ‘Chega de fiu fiu’ retrata a violência sofrida por mulheres

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Em julho de 2013, o coletivo Think Olga, lançou na internet a campanha Chega de fiu fiu, com o objetivo de combater o assédio sexual contra as mulheres nos espaços públicos. A iniciativa de Juliana de Faria, fundadora da organização, deu tão certo que o projeto deu início ao Mapa Chega de fiu fiu, uma plataforma colaborativa com relatos de violência em pontos de cidades brasileiras.

Inspiradas nessa iniciativa, as diretoras Amanda Kamanchek Lemos e Fernanda Frazão decidiram fazer um documentário abordando a temática da campanha, que também dá nome ao longa-metragem. “Eu trabalhava como ativista no direito da cidade e no enfrentamento contra a violência das mulheres e já tinha um projeto de um documentário sobre os movimentos feministas. Tinham alguns filmes pipocando sobre essa temática do assédio em outros países. Surgiu a campanha Chega de fiu fiu e com a perspectiva do mapa, a gente se aproximou e fizemos esse convite para a Juliana. E eu e a Fernanda fomos tocando o projeto como diretoras e roteiristas”, lembra a brasiliense Amanda Kamachek.

O que realmente motivou as diretoras a seguirem essa direção foi o choque em relação aos dados da campanha — entre eles, de que 86% das brasileiras sofreram violência sexual ou assédio em espaços públicos, segundo a pesquisa da ActionAid. “Ficamos muitos impressionadas e achamos que aquilo poderia ser traduzido em outra linguagem. A gente já trabalhava como documentaristas e escolhemos partir para essa aventura”, conta Fernanda Frazão.

O filme pôde ser feito a partir de uma campanha de financiamento coletivo na internet e a ideia inicial era produzir um curta-metragem, com a meta de R$ 20 mil, atingida em apenas 24 horas. “Foi um recorde no Catarse (site de crowdfunding) e acho que mostrou a demanda para esse tema e para esse assunto”, completa Amanda.

Depois de ter sido disponibilizado para os doadores da campanha, ao todo 1.219 apoiadores, Chega de fiu fiu estreou nesta semana no circuito comercial de São Paulo e ganhou sessões especiais em Brasília, Cachoeira (Bahia), Porto Alegre, Rio de Janeiro, Florianópolis e Belo Horizonte. “A comercialização foi uma surpresa que recebemos na semana passada. O nosso sonho sempre foi chegar às escolas. Furar essa bolha, ir para esse Brasil mais profundo, ir para lugares onde esse debate é menos acessível. Esse filme é uma ferramenta de educação e sensibilização para o assunto”, analisa Fernanda Frazão.

Dinâmica

Em formato documental, Chega de fiu fiu acompanha a história de três mulheres: Rosa Luz, rapper e artista visual moradora do Gama, Raquel Carvalho, estudante de enfermagem que vive em Salvador, e Teresa Chaves, professora de história de São Paulo. Cada uma delas têm relatos parecidos de assédio nos espaços públicos mesmo em perspectivas diferentes, já que cada uma delas vive uma realidade.

“Desde o início tivemos uma preocupação em representar a maior diversidade de identidade de gênero, raça e classe. Foi uma escolha muito cuidadosa. Também queríamos trazer cidades com dinâmicas diferentes. São Paulo, que é essa megalópole e com uma pessoa que se locomove de uma maneira pouco usual, com uma bicicleta. Escolhemos Brasília por ser essa cidade que não é feita para pessoas. Ela é modernista, mas é pensada para carros. E Salvador, que é uma cidade litorânea e com a maior população negra do país”, explica Fernanda.

Além de acompanhar as três personagens, o documentário paralelamente utiliza depoimentos do Mapa Chega de fiu fiu e conta com declaração de especialistas, como a filósofa Djamila Ribeiro e a ex-secretaria de Política para Mulheres Nilceia Freire, que falam sobre a temática. “Tivemos que fazer um recorte para tentar achar o máximo de diversidade, porque o filme trata das várias violências que as mulheres sofrem no espaço público. O assédio é uma delas. A cultura do estupro tem várias nuances, desde o assédio verbal ao feminicídio e ao estupro”, completa Fernanda Frazão.

Outro ponto de Chega de fiu fiu é que o longa-metragem mostra cenas de um grupo de debate formado por homens. O objetivo não é dar direito de resposta a eles, como explica Fernanda, mas colocar os homens também nesse confronto. “A masculinidade também precisa ser debatida. Os homens precisam se comprometer com isso. As mulheres não têm obrigação nem o dever de ensinar. A gente sabe que os homens são maiores agressores contra as mulheres e têm que ser incluídos nesse debate. Essa discussão também é deles, não dá para separar”, conclui.

Sessão especial

Já estão confirmadas sessões especiais do filme em seis cidades brasileiras, entre elas, Brasília. A sessão brasiliense será neste domingo (27/4), a partir das 11h, no Cine Brasília, na Asa Sul. “A expectativa estava bem grande, porque é a cidade onde o filme aconteceu, por ter toda essa simbologia de uma cidade modernista e aparentemente projetada, mas que tem essa condição de cidade muito para o carro. E nós temos o direito à cidade”, justifica Amanda Kamanchek.

Após a exibição de Chega de fiu fiu, a sessão especial contará com um bate-papo com a presença da diretora Amanda Kamanchek, de Rosa Luz (uma das personagens do filme), Jaqueline Fernandes (subsecretária de Cidadania e Diversidade Cultural e representante do Coturno de Vênus — Associação Lésbica Feminista de Brasília) e de Luana Ferreira, representante da AMB — Articulação de Mulheres Brasileiras. A entrada é franca e os ingressos serão distribuídos uma hora antes da sessão.

Fonte: Correio Braziliense

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