9 em cada 10 mortes maternas no Brasil poderiam ser evitadas. Mas por que não são?

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Cerca de 92% das mortes maternas registradas no Brasil ocorrem por causas consideradas evitáveis, de acordo com o Ministério da Saúde. Ou seja, nove em cada dez óbitos maternos poderiam ter sido evitados de alguma forma, com ações efetivas dos serviços de saúde públicos ou privados.

A morte materna é, por definição, aquela que ocorre durante a gestação, no parto ou até 42 dias depois do nascimento do bebê, causada por qualquer fator relacionado à gravidez ou agravado por ela. No Brasil, hipertensão e hemorragia são as principais causas de óbitos maternos. Fatores que, com o diagnóstico e tratamento adequado, poderiam ser controlados.

A gente precisa de maneiras mais efetivas de diagnosticar quais são as vulnerabilidades da população, para prevenção dos desfechos fatais.

Hoje, 28 de maio, é celebrado no calendário oficial o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna. Mas há o que comemorar? Sim. Houve avanço. Entre 1990 e 2015 a razão de mortalidade materna no País caiu 56%, de 143 para 62 óbitos maternos a cada 100 mil nascidos vivos, de acordo com o último dado oficial divulgado pelo governo.

A queda, no entanto, não foi suficiente para que o País atingisse a meta definida como um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio pela ONU, de redução de 75%, para 35 mortes por 100 mil nascidos vivos. E a taxa brasileira continua sendo considerada alta, mesmo em comparação com outros países da América Latina. O Chile, por exemplo, tem uma taxa de 15 mortes por 100 mil nascidos vivos.

mortalidade materna

Mas o que impede o Brasil de reduzir ainda mais esse índice de mortes maternas, considerando que a maioria poderia ser evitada? O HuffPost Brasil conversou com especialistas para tentar responder a essa pergunta.
Atendimento pré-natal

Um dos pontos levantados pela professora Carla Andreucci Polido, do Departamento de Medicina da UFSCar, é que, embora a maioria das mulheres tenha acesso ao atendimento pré-natal, esse acompanhamento nem sempre tem a qualidade ideal. Em 2016, as mães de 7 em cada 10 nascidos no Brasil passaram por 7 consultas ou mais durante a gravidez. Apenas 2% não passaram por nenhum atendimento.

“O acesso ao pré-natal é muito bom no Brasil se considerarmos o ganho que tivemos nas últimas décadas. Atualmente, maioria das mulheres faz pelos menos seis consultas de pré-natal, têm a solicitação dos exames exames necessários. O que está faltando, na verdade, é a qualificação desse pré-natal. Não importam só os números. A gente precisa de maneiras mais efetivas de diagnosticar quais são as vulnerabilidades da população, para prevenção dos desfechos fatais”, explica.

Para Carla, o fato de a hipertensão ser a principal causa de morte materna no País evidencia a gravidade da situação. “Temos como diagnosticar a maioria absoluta dos casos de hipertensão. São muito raros os casos em que a ocorrência da doença complicada seja tão abrupta que não tenha permitido que, em algum momento anterior, quando o quadro era reversível, uma intervenção pudesse ser feita”, afirma a médica obstetra.

É inadmissível que a gente ainda perca mulheres por causa de hemorragia.

Para ela há uma falha tanto no diagnóstico da doença, durante o pré-natal, quanto no manejo da doença, após diagnosticada. “Essas mulheres não recebem a medicação, que é amplamente disponível e que previne a morte materna, que é o sulfato de magnésio”, diz.

A segunda causa de óbitos maternos no Brasil é a hemorragia. “Existe um intervalo de uma hora, entre o diagnóstico do choque hemorrágico e o manejo técnico que tem que ser feito, que se não for observado, aumenta a probabilidade da mulher morrer a cada minuto que passa. E nós falhamos nesse diagnóstico”, afirma Carla.

“Chama muito a atenção que a maioria dos partos no Brasil é realizado em instituições de saúde e atendido por profissionais qualificados, médicos ou enfermeiros obstetras e obstetrizes. Mesmo assim, essas mulheres têm o diagnóstico atrasado e o manejo comprometido por causa disso”, avalia. “É inadmissível que a gente ainda perca mulheres por causa de hemorragia”, completa.

Se o País não tem condições adequadas, e você vê isso todos os dias, não adianta colocar a culpa no médico. É culpa de toda uma estrutura.

Segundo a médica obstetra, ainda falta qualificação dessa assistência, para que protocolos nacionais e internacionais que visam a redução de mortes sejam seguidos e que os profissionais ajam nos momentos oportunos de forma adequada. “O que acontece é que, quando a mulher está lá, na ponta da assistência, aquele profissional que está atendendo ela na hora do parto não vai aplicar aqueles protocolos que a evidência defende”, afirma.

Para Rosiane Matar, coordenadora científica de obstetrícia da Associação de Obstetrícia e Ginecologia de São Paulo, também há um problema estrutural grave. “Em alguns lugares do País, a pessoa pode estar treinada, só que ela não tem condições de aplicar esses procedimentos”, afirma. “Por maior que seja o nosso esforço nesse treinamento, se o País não tem condições adequadas, e você vê isso todos os dias, não adianta colocar a culpa no médico. É culpa de toda uma estrutura”, completa.

Intervenções desnecessárias aumentam riscos

O desrespeito às recomendações internacionais e nacionais para o parto fica evidente quando vemos que o Brasil é um dos países que mais realiza intervenções desnecessárias na hora do nascimento.

O País ostenta um dos maiores índices de partos por cesárea do mundo. Os nascimentos por intervenção cirúrgica cesariana representam 55% dos partos realizados. O índice em diversos hospitais da rede privada de saúde chega a 90% do total. “A gente oferece a maior intervenção no parto, que é a cesariana, para mais de metade da população, e ainda assim não consegue reduzir a morte materna”, observa a obstetra Carla Andreucci Polido.

Segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), a cesárea eletiva, que é aquela feita mesmo quando não é necessária para garantir a saúde da mãe ou do bebê, triplica o risco de morte da mãe e aumenta em seis vezes o risco de a mulher ter uma complicação grave, como a retirada do útero, uma infecção ou a necessidade de fazer uma segunda cirurgia.

Às vezes um médico passa a vida inteira sem ter um caso de morte materna, mas não significa que ele não colou mulheres em risco.

“Para cada mulher que morre, a gente tem um número assustadoramente grande, que pode chegar até 20 ou 30 outras mulheres que tiveram complicações muito graves mas que sobreviveram. Essas mulheres elas são invisíveis para as nossas estatísticas”, avalia a pesquisadora. “Às vezes um médico passa a vida inteira sem ter um caso de morte materna, mas não significa que ele não colou mulheres em risco”, completa.

A realização da episiotomia, e depois do chamado “ponto do marido”, em que o médico faz um corte na vagina para aumentar o canal do parto e depois dá um ou dois pontos a mais, com a ideia que de que precisa deixar a vagina mais fechada para o prazer sexual do parceiro da gestante, aumentam o risco de hemorragia, por exemplo, a segunda principal causa de morte materna no país. Mas o método ainda é utilizado e até mesmo ensinado em escolas de medicina, ainda que instituições como a OMS recomende que isso não seja feito, avalia a advogada e ativista Ana Lúcia Keunecke, da Rede pela Humanização e Nascimento (ReHuNa).

A humanização do parto permite que você individualize as medidas e faça menos intervenções, evite o uso de drogas para acelerar o trabalho de parto.

É comprovado, quanto menos intervenções desnecessárias, melhores vão ser seus resultados, afirma Carla. Essa, inclusive, é a grande bandeira da humanização do parto, que pode ser uma aliada para a redução das mortes maternas, avalia a especialista. “A humanização do parto permite que você individualize as medidas e faça menos intervenções, evite o uso de drogas para acelerar o trabalho de parto, reduza a quantidade de toques, ofereça outros métodos não farmacológicos de controle de dor”.

Violência obstétrica e institucional

Qualquer dessas intervenções desnecessárias ou não solicitadas pelas mulheres, além de aumentarem os riscos para a mãe e para o recém-nascido, são consideradas violência obstétrica. As principais vítimas dessa violência e da morte materna são, historicamente, as mulheres negras, que só em 2016, representaram 65% dos óbitos maternos notificados no país, segundo dados do DataSUS.

“Essa população é negligenciada no pré-natal, tem menos acesso a assistência de qualidade e uma das violências obstétricas que sofre é a de receber menos analgesia da hora do parto, por um preconceito de que ela suporta mais a dor”, avalia Carla. “Essa mulher fica numa posição ainda mais fragilizada de solicitar o que tem direito, pois acha que vai sofrer mais violência se o fizer. O que é bem provável. Então acaba sofrendo mais com as intervenções desnecessárias e não consegue as intervenções que precisa”, observa.

morte

A advogada Ana Lúcia Keunecke avalia que a violência não ocorre só no parto e que existe uma violência institucional, que começa já no pré-natal. “Temos um comportamento que está focado na sociedade patriarcal, que julga a mulher. Quando vai para um pré-natal onde deveria ser acolhida e ter suas necessidades ouvidas, essa mulher, na maioria das vezes, escuta um julgamento sobre a sua vida”, explica. “Se tivesse um atendimento pré-natal competente, respeitoso e que prestasse atenção às necessidades individuais da mulher, a gente já conseguiria reduzir essas mortes.”

Para ela, essas violências sofridas pelas mulheres são violações aos direitos humanos e falta, por parte das organizações internacionais, como ONU e OMS, sanções ao Brasil, para que o cenário melhore. “O Brasil já foi denunciado por essas questões a esses órgãos. E acho que na hora que o país sofrer um embargo ou uma condenação, como foi o caso da Maria da Penha, talvez isso mude”, afirma.

Fonte: huffpostbrasil.com

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